Mariana Ferreira, jovem paulistana de 33 anos, nos presenteia com a obra “Que cheiro tem a casa da vovó?” e delineia um retrato sensorial e afetivo que toca diretamente no que chamamos de memória afetiva — aquele canto íntimo onde fusão de cheiro, calor humano e ancestralidade se fazem presentes. O uso delicado do olfato como fio condutor — terra úmida, pó de café, lençol seco — invoca o espírito de um lar acolhedor e poderoso, mesmo em sua aparente simplicidade.
A autora domina uma linguagem enxuta, que carrega significados profundos. Elementos simbólicos — o balcão onde se acende um incenso, o cordão de fotos amareladas na parede — já delineiam um mosaico de pertencimento, religiosidade e tradição. Sua narrativa breve não é limitadora: ela convida o leitor a preencher os vazios com suas próprias memórias e aromas, criando um elo subjetivo universal.
O texto mergulha na memória afetiva, trazendo à tona lembranças da infância associadas à casa da avó. É um retrato caloroso da ancestralidade, da convivência familiar e da herança sensorial (cheiros, sons, imagens e gestos) que marcam nossa subjetividade. A casa da avó torna-se um símbolo de um tempo seguro, quase mítico, que resiste ao esquecimento.
A pergunta inicial — “Que cheiro tem a casa da vovó?” — serve como disparador poético. Ela não busca uma resposta objetiva, mas evoca uma experiência emocional e coletiva, típica das infâncias periféricas e negras. O cheiro aqui é símbolo de memória, de ligação afetiva e de pertencimento.
Ao lê-lo rememorei a obra “Olhos d’água” de Conceição Evaristo, e sua “escrevivência”, onde vida e escrita se entrelaçam. Ambos os títulos são metáforas que envolvem o corpo e os sentidos para acessar o passado. Enquanto Conceição usa a imagem da água como símbolo de emoção profunda e memória de dor, Mariana usa o cheiro como canal de acesso à saudade e à identidade. Ambos tratam do sentir para lembrar.
A linguagem é carregada de lirismo e oralidade. A estrutura solta e quase fragmentada reforça a ideia de lembranças que vêm em ondas, de forma não linear. A obra carrega lirismo e simplicidade, porém não diminui sua força expressiva— ao contrário, a torna mais verdadeira, mais íntima. A presença de termos como “quebrava quebranto”, “cheiro de hortelã, alecrim e arruda” e as referências aos santos e rezas constroem um universo popular e espiritualizado, fortemente ligado à cultura afro-brasileira.
As figuras do avô, da avó Maria (provavelmente uma figura de cuidado ou sabedoria popular) são representações afetivas, simbólicas e profundamente enraizadas na tradição oral e cultural. Elas funcionam como guardiãs da memória, do afeto e da espiritualidade. Maria, por exemplo, é quase uma representação da “mãe-preta” arquetípica — sábia, religiosa, curandeira.
Por fim, Mariana Ferreira, com sensibilidade e economia de palavras, resgata o cheiro da casa da avó como espaço de lembrança, pertencimento e subjetividade e nos convida insistentemente a descobrir: “Que cheiro tem a casa da vovó?
Por
Ms. Sandra Santos
Escritora e Palestrante





